São Paulo, 10 de agosto de 2012 - A Venezuela passou a integrar o Mercosul
oficialmente no dia 30 de julho em meio às divulgações animadas do governo
brasileiro de que o bloco passaria a deter 70% da população da América do Sul
e Produto Interno Bruto (PIB) de R$ 3,3 trilhões. Entretanto, o novo membro
não deve trazer bons frutos ao Brasil, pelo menos no curto prazo, de acordo com
especialistas ouvidos pela Agência Leia.
"A percepção, a princípio, é negativa. A entrada da Venezuela pode
aumentar os pulsos políticos e dificultar o estabelecimento de acordos
comerciais com outros países. Essa entrada tem um custo que acaba travando os
ganhos. Boa parte da perda de produtividade da economia brasileira vem da
política protecionista e, em um primeiro momento, a leitura dos mercados será
de mais protecionismo", avalia Rafael Cortez, cientista político da
Tendências Consultoria.
De acordo com a avaliação de Cortez, as questões econômicas darão lugar
às discussões políticas e o Brasil, que está na presidência pro tempore do
bloco até dezembro deste ano, deverá se ocupar com a amenização de arestas
entre Venezuela e Paraguai - suspenso do bloco e não concorda com a entrada do
novo país membro -, deixando o comércio bilateral para segundo plano.
Além da estagnação nas negociações comerciais, grandes potências como
os Estados Unidos e países da zona do euro não devem ver essa união com bons
olhos, devido à liderança questionável de Hugo Chávez. "Do ponto de vista
da expansão do Mercosul e com outras economias pode ser que o País perca
espaço. O efeito na economia é negativo, porque trava comércio multilaterais.
O potencial comercial seria muito maior com economias mais avançadas do que
poderíamos ganhar com a Venezuela", explica Cortez.
José Augusto de Castro, presidente em exercício da Associação de
Comércio Exterior do Brasil (AEB), também chama a atenção para os mercados
que o País perde atuando no Mercosul. "Temos acordos bilaterais com Palestina
e Israel, quase não tem impacto. Já o Chile e o México têm mais de 20
acordos bilaterais. O bloco do Mercosul está se tornando um bloco de
esquerda", avalia.
"Pode diminuir as chances de acordos bilaterais em algum nível, mas a
América do Sul fortalecida tem mais chance de acordo com China. A entrada da
Venezuela é, no longo prazo, uma boa coisa. No curto precisará enfrentar
problemas, principalmente nos planos políticos", acrescenta Paulo Vicente,
professor de estratégia da Fundação Dom Cabral.
Castro considera que "em teoria", a entrada da Venezuela poderia ser um
bom negócio, mas isso não deve se concretizar na prática. "Desde 2006 a
Venezuela fala em entrar no Mercosul e isso foi discutido governo a governo, o
setor privado não participou de nada, o que normalmente acontece. Foi uma
decisão política, não comercial, sob a ótica do Brasil", conta.
Para o presidente da AEB, a decisão foi absolutamente política e não tem
como objetivo a adoção de tarifas externas comuns, necessária para integrar o
Mercosul, pelo menos não tão cedo, já que ainda não foi fixado prazo para
que o país adote as medidas. De acordo com Mario Gaspar Sacchi, professor do
curso de Relações Internacionais da ESPM, a adoção das regras do Mercosul
poderá levar de quatro meses a um ano e meio. "Não podemos esperar mudanças
radicais", avalia Sacchi.
Castro também acredita que toda a agenda do Mercosul poderá ficar
comprometida devido à necessidade de aprovação unânime para a tomada de
decisões. "Já estávamos prisioneiros com quatro países. Nunca teremos
unanimidade, isso não vai andar pra frente", assinala.
Apesar da tensão política criada pela aproximação do governo brasileiro
de Hugo Chávez, Cortez acredita que o Brasil poderá eventualmente ter algum
ganho político, por ser a principal economia do bloco, na interlocução com
outros países em fóruns das Organizações dos Estados Americanos (OEA) e
multilaterais.
Carlos Honorato, economista da Fundação Instituto de Administração
(FIA), acredita que os danos por divergências políticas podem ser minimizados.
"Antes do Chávez, a relação é com a Venezuela. O que acho perigoso é se
começarmos a começar a tomar decisões com base na ideologia dele e não
devemos ser interferidos por isso", conta.
No lado comercial, indústrias dos setores de construção civil,
eletroeletrônicos, principalmente linha branca, alimentos e serviços podem
tentar aumentar suas exportações para o país, já que a demanda para esses
segmentos é ampla na Venezuela.
Do lado de cá, as esperanças de importação recaem sobre o extenso
mercado petrolífero da Venezuela. Após a divulgação de prejuízos da
Petrobras, também por conta de importação de combustíveis, o país poderia
minimizar perdas diante da negativa do ministro da Fazenda, Guido Mantega, em
reajustar preços neste ano. Os derivados de petróleo já passaram por dois
aumentos neste ano e um novo reajuste poderia ter impactos indesejados sobre a
inflação.
"Uma boa relação com a Venezuela pode trazer algum ganho, é algo
potencial", acredita Cortez. Entretanto, Honorato avalia ser "temerário"
esperar alguma forma de apoio da Venezuela nesse sentido. "Eu preferiria
aguardar um pouco para ver se os benefícios comerciais virão", avalia.
Esses e outros temas devem fazer parte das discussões do bloco até
dezembro. A primeira reunião do Grupo de Trabalho do Mercosul sobre a Venezuela
acontece na próxima segunda-feira, dia 13 de agosto.
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