São Paulo, 10 de agosto de 2012 - O progresso que a Itália obteve em
diminuir a sua dívida, consolidar sua situação fiscal e reformar as
estruturas de sua economia do ano passado para cá pode ser prejudicado se o
país sofrer com turbulências políticas provocadas pela aproximação das
eleições gerais marcadas para 2013 e pela possibilidade de o primeiro-ministro
italiano, Mario Monti, não concorrer a um novo mandato, afirmam analistas
consultados pela Agência Leia.
Quando assumiu o governo italiano, em novembro do ano passado, após a
conturbada saída de Sílvio Berlusconi, Monti se deparou com um Estado
altamente endividado, pressionado pelos parceiros da zona do euro a tomar
medidas para evitar que a situação saísse do controle e acabasse prejudicando
fortemente o bloco. Formando um governo de tecnocratas, apoiado por um consenso
político acertado dentro do Parlamento, o novo primeiro-ministro aprovou
quatro pacotes fiscais que traziam medidas como aumento da idade para
aposentadorias, elevação de impostos sobre propriedades, demissão de
funcionários públicos e combate à evasão fiscal.
"O gabinete de Monti colocou adiante medidas de ajuste fiscal equivalentes
a cinco pontos percentuais do PIB [Produto Interno Bruto]. Como resultado, a
Itália, ainda neste ano, obterá o maior superávit primário da zona do euro,
como foi confirmado pelo FMI [Fundo Monetário Internacional]. O gabinete de
Monti também promoveu reformas em outros fronts, conseguindo resultados nunca
vistos no país e dentro de um espaço muito curto de tempo", diz Domenico
Lombardi, presidente do Oxford Institute for Economic Policy.
Dados mostram que o processo de consolidação fiscal gerou resultados. Um
relatório elaborado pelo FMI em 9 de julho concluiu que o déficit fiscal da
Itália está diminuindo, passando de 4,5% do PIB em 2010 para 3,9% em 2011. A
expectativa para este ano é de que o déficit alcance 2,6%. Junto a isto, no
dia 16 de julho, o vice-diretor de assuntos fiscais do FMI, Philip Gerson, disse
que os ajustes levarão o país a registrar o maior superávit primário da
zona do euro.
Entretanto, de 2010 a 2011, a dívida geral do governo italiano passou de
118,7% do PIB para 120,1%, sendo que as projeções para este ano indicam que
ela alcançará uma relação de 125,8% .
"A situação fiscal atual da Itália é boa. Ele está melhor que a
Espanha, por exemplo, e melhor ainda que a Alemanha. Mas superávit fiscal não
é o mesmo que superávit orçamentário. A Itália tem uma enorme dívida e
deverá pagar altos juros. A expectativa é de que as contas estejam
equilibradas a partir de 2014", projeta Vincenzo Scarpetta, pesquisador do
instituto Open Europe.
Os analistas são unânimes em dizer que, embora tenha havido bastante
progresso em um curto espaço de tempo, ainda é preciso fazer muito mais,
principalmente no lado das reformas estruturais. "Os problemas são
estruturais, como, por exemplo, um mercado de trabalho rígido, falta de
crescimento, falta de competitividade. Muito já foi feito e será preciso fazer
mais", diz Scarpetta.
"A combinação da consolidação fiscal e reformas está sendo feita para
melhorar o desempenho e diminuir a dívida. No curto prazo, não há soluções
fáceis", acredita Gergely Kiss, diretor do grupo de Soberanos da agência de
classificação de riscos Fitch Ratings.
De acordo com ele, diante destas condições, o atual potencial de
crescimento da economia italiana é de 1%. "Não é muito, mas está acima do
que vimos ocorrer na última década", diz Kiss. No entanto, o FMI acredita
que o PIB contrairá 1,9% neste ano por conta da desaceleração internacional e
o processo de consolidação fiscal.
Risco político
Com as reformas estruturais aprovadas pelo Parlamento e as medidas de
consolidação fiscal tendo efeitos positivos na economia da Itália, o grande
desafio do país será levar adiante as mudanças promovidas pela equipe de
Mario Monti. Porém, os analistas alertam para a possibilidade de uma
interrupção, que pode ser causada com a chegada das eleições gerais,
marcadas para o ano que vem.
"Haverá eleições gerais em 2013, e temos dúvidas sobre o que
ocorrerá. Acreditamos que o futuro das reformas fica mais incerto. Com base em
experiências passadas, vimos que o apoio político para reformas é fraco",
alerta Kiss.
Um dos fatores que fazem os analistas prestarem atenção no risco político
é a probabilidade de Mario Monti não querer disputar a reeleição. "O
risco estará quando Monti sair. Não acho que ele continue no governo, ele deve
acabar indo para um cargo de âmbito europeu, mais adequado ao seu perfil",
afirma Mujtaba Rahman, analista de Europa da consultoria Eurasia. "Quando a
eleição se aproximar, existe o risco de o consenso político [que sustenta o
governo] se quebrar. É importante que ele [governo] faça o que puder, em
termos de reformas, ainda neste ano".
A perda de apoio quase ocorreu nesta semana, depois de Monti dizer que se
Silvio Berlusconi ainda estivesse no poder, a diferença (spread) entre os juros
dos títulos de dez anos da Itália e da Alemanha teria alcançado 1.200
pontos-base, ou 12 pontos porcentuais. Os comentários atraíram uma reação
furiosa por parte do partido de Berlusconi, Popolo della Libertà (PdL), que
representa o maior grupo no parlamento da Itália.
"Nós entendemos que ele possa não gostar do fato de o spread estar
instável durante seu governo e possa estar chateado, mas isto não pode
justificar sua provocação que é tanto inútil quanto estúpida. Nós a
devolvemos ao remetente", disse, na ocasião, Fabrizzio Cicchitto, deputado do
PdL.
Outra questão é o fato de, neste momento, nenhuma força política emergir
como franca favorita. "O grande problema na Itália é esta instabilidade
política. Nenhum partido possui maioria para governar. O que devemos ver após
a eleição do ano que vem é a necessidade do vencedor formar coalizão. A
pergunta é quem formará a coalizão", diz Scarpetta.
"Não está claro quem sucederá Monti e a coerência deles [com as
reformas]. Isto deve levar volatilidade ao mercado. Dependendo de como estiver a
situação da zona do euro, veremos um aumento da pressão dos países em cima
da Itália pela formação de um governo. Caso esteja mais tranquilo, e a
situação doméstica estiver boa, a pressão deverá ser menor", acredita
Rahman.
O nome de Berlusconi, sempre aventado em épocas de eleições, parece não
ter apoio da população, segundo leitura do analista da Eurasia. "Não acho
que é realista [a volta de Berlusconi]. Ele até gostaria, mas tem um déficit
de confiança com a população, não existe apoio a sua mensagem, ele não tem
mais credibilidade. O país não quer mais ele, é muito barulho, não há
risco".
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